O que resta de uma história quando se perde a memória? Na velha casa de quintal comprido, os quartos conjugados, tia Piínha se senta à máquina e começa a costurar. Ela faz roupas de festa e vestidos de noiva, cuida da mãe esquecida e da filha adoentada, sem falar na velha tia solteira e na neta menina-moça, já quase mais moça que menina; e de vez em quando ainda arranja tempo para cantar Carinhoso no banho de cuia. Lá vêm sombras de castanholas contra rajadas de sol, suas mãos escolhem fazendas, tomam agulhas, há fonte na praça e custódia no altar. Tia Doninha é senhora de puxar balas e mexer doces no caldeirão da cozinha; tia Isaura separa vidrilhos, e Germana bate o pão de ló. Já tia Faustina, descruzando os braços, olha-me nos olhos e torna a tricotar... Por onde andei eu esse tempo inteiro que até agora não descobri aonde todas elas foram parar? O bordado no colo, o tamborete na calçada, a travessa nos cabelos. Na confusão da minha memória, sou ainda um menino de braço variando entre os colos delas. No vislumbre de meus olhos, porém, sou um velho atordoado que a idade traiçoeira transforma em criança outra vez.