O budismo contém uma das mais profundas análises da condição humana já produzidas - o diagnóstico do sofrimento, a contemplação da impermanência, a doutrina do não-eu, a vertigem do vazio, a meditação que de fato pacifica milhões, a ética da compaixão. Nada disso é ridicularizado neste livro. Mas nenhuma profundidade torna uma tradição imune à gramática do poder. Em BUDISMO E A RELIGIÃO DO VAZIO, Francis Valadj recusa as duas mentiras simétricas - a romantização da 'Shangri-La' espiritual e o ataque de superioridade ocidental - e faz a leitura crítica que poucos ousam.
Décimo primeiro volume da coleção As Religiões do Segredo, este livro separa o ensino da instituição e o praticante sincero do guru que o explora. Examina quatro usos de poder: o do sofrimento (quando as Quatro Nobres Verdades viram resignação), o do desapego (quando vira fuga do mundo e anestesia da dor - o 'spiritual bypassing'), o do karma (quando vira teodiceia que culpa a vítima e justifica a desigualdade) e o da autoridade monástica (quando a devoção ao guru cria o mestre intocável que os abusos documentados em Rigpa e Shambhala revelaram). E enfrenta o que desmente o mito do budismo unicamente pacífico: o nacionalismo budista e a violência em Mianmar e no Sri Lanka, o zen no militarismo japonês, e a mercantilização do 'McMindfulness'.
A revelação última é a mais funda: o vazio (śūnyatā) pode ser a mais libertadora das verdades ou a mais silenciosa das prisões - um vazio no qual desaparece não só o eu, mas o sofrimento do outro e a exigência de justiça. Um vazio que não retorna à compaixão não é iluminação: é anestesia. E a resposta está dentro do próprio budismo - no bodhisattva que, podendo extinguir-se, volta ao mundo de olhos abertos.