Há livros que se leem; este se respira.
Como Matar um Sabiá reúne três narrativas que atravessam o mesmo território incandescente: o tempo, a fé, a loucura mansa e o desejo de pertencer a algum lugar. Uma faxineira filósofa que discute Deus enquanto varre o chão; um agente de crédito que sai de dentro do forno; um homem que conta a própria vida pelas estações do metrô, como quem reza uma via-sacra. Entre São Paulo e as Minas de ferro-gusa, entre a assepsia dos ricos e a sujeira sagrada dos que sobram, José Eulina escreve uma prosa de fôlego longo e oralidade mineira, em que o riso e o abismo cabem na mesma frase.
Não é realismo, não é fábula: é uma travessia. O leitor sai com a sensação de ter ouvido uma voz que não se parece com nenhuma outra - telúrica, erudita e popular ao mesmo tempo, capaz de citar Agostinho e falar dos "trem da vida" no mesmo sopro. Para quem gosta de literatura que arde: fluxo de consciência, lirismo cortante e um humor que não pede licença.
"O tempo passa rápido quando a gente permanece parado."