É crença anterior à pregação de Cristo, quanto ao texto, mas diversa do espírito do Evangelho, a eternidade das penas. Prende esta crença com outros dogmas rabínicos, tão obscuros quanto descaridosos, que a Igreja nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da teologia cristã. Podemos reduzir aqueles dogmas a cinco, consubstanciados todos no Inferno. Vem a ser: a Rebelião de Satã, o Castigo de Satã, o Paraíso terreal, a Maldição dos homens, o Povo de Deus.
Não intento esquadrinhar o sentido filosófico de tais dogmas: tal canseira, supérflua para leitores instruídos, seria insipida e inútil para os ignorantes. Que Satanás, inferno, pecado original, etc., sejam ou não horrendos símbolos do antigo panteísmo asiático,-expressão viva dum sistema de metafisica mais terrível que especioso, onde liberdade e mal se confundem, e o nada divinizado tem consciência de si, e Deus quase deixa de ser-questões são essas próprias de academias. Tais dogmas para mim são o que à letra significam; sei deles o que nos ensinam; vejo-os como nos mandam vê-los, como a multidão os vê, coisas reais, pessoas verdadeiras, e não quimeras. Considero-os pois sob a forma com que eles, há muitos séculos, influem no gênero humano: e não há mais seguro modo de lhes apreciar o valor moral.
Entremos na exposição, clara quanta for possível, destes dogmas misteriosos.
Pierre-Auguste Callet foi um político francês nascido em Saint-Étienne (1812-1883).
Jornalista em Paris, depois em Saint-Étienne, foi deputado pelo Loire de 1848 a 1851, sentado à direita. Ele foi para o exílio na Bélgica após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851. Foi deputado pelo Loire de 1871 a 1876 e, embora favorável à República nos primeiros meses, ocupou a posição de centro-direita.