Книга O Ultimo Vereador Honesto Luis G. V. Silva

O Ultimo Vereador Honesto

Език: Португалски език
Корици: С меки корици
Издател: Independently published
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A noite no Lago das Garças tinha cheiro de barro, fumaça de fogueira velha e o silêncio de quem fez...

Информация за книгата

Език
Португалски език
Корици
Книга - С меки корици
Издадена
2026
страници
226
EAN
9798199215862
Enbook ID
52749396
Издател
Теглоt
310
Размери
152 x 229 x 12

Пълно описание

A noite no Lago das Garças tinha cheiro de barro, fumaça de fogueira velha e o silêncio de quem fez a escolha errada. É assim que a história de Elias Barreto começa, não nos gabinetes de Brasília, mas no banco de courino de um Fusca com cheiro de pinho barato. Uma curva, um estalo, o cascalho parecendo neve numa terra onde nunca nevou, e a vida dele se dividiu. Mateus, o irmão que sempre vinha, morreu antes da ambulância chegar. Elias saiu com três costelas quebradas e uma culpa que grudou no peito feito piche.

Dez anos depois, as feridas fecharam, mas a cabeça continuou no mesmo lugar. Quando virou vereador em Nova Esperança, no interior de Goiás, ele votou a favor do SIC: Sistema de Índice de Cidadania. Uma tecnologia que monitorava e dava uma nota para cada morador. No fundo, Elias achou que se o algoritmo existisse antes, o sistema teria bloqueado a ligação de um jovem bêbado, impedindo o Fusca de sair e salvando seu irmão. Votou pela dor, pela redenção. Ele só não sabia que assinava a própria sentença de morte social.

Anos se passaram e a reputação virou a única moeda em Nova Esperança. Se o seu índice cai, a padaria do Seu Bento não te vende o pão. Os bancos fecham as portas, os vizinhos desviam o olhar e as câmeras nos postes focam apenas em quem ainda tem relevância. É o terror burocrático na veia de uma cidadezinha pacata, onde o medo cheira a suor frio e papel velho, abafado pelo zumbido dos transformadores.

Tudo muda quando uma mulher de jaqueta jeans surrada aborda Elias na Praça da Matriz. Ela entrega papéis presos por um elástico vermelho gasto e diz: "Meu marido não existe mais". Não é um desaparecimento comum; o homem foi "apagado". O horror se torna físico quando Elias tenta ler o nome na certidão e as sílabas escorregam de sua mente, feito fumaça. A mente das pessoas, adestrada pelo índice, começa a deletar quem o sistema rejeita. Quem perde os pontos perde o direito de ser lembrado.

Elias, o "vereador remendado" que esconde o paletó desfiado com fita adesiva preta, resolve puxar o fio dessa meada. O que começa com uma suspeita de fraude na Cesta Cidadã logo revela uma engrenagem implacável: o prefeito Túlio Gouveia ostenta um índice impecável de 950 pontos enquanto destrói qualquer um que ameace seu controle.

O livro se desenrola num ritmo sufocante, dividido entre a obsessão pelo score, a costura das alianças políticas e o inevitável processo de apagamento. O grande trunfo da obra é trazer o peso de uma distopia tecnológica para o chão batido do Brasil profundo. Não há carros voadores; o que há é o silêncio constrangedor de um plenário vazio, o ar-condicionado que arranha a garganta e a dor de um homem que vê sua história ser reescrita por um servidor de dados.

Caçado, com o CPF suspenso e a certidão sob verificação, Elias acaba isolado numa mata fechada onde os satélites não alcançam. Sua esposa, Clara, arrisca o pouco que restou para levar um prato de comida. No bolso do paletó velho, o metal frio de um pendrive nunca entregue é a última prova de que ele existiu. "O sistema não mata pessoas. Apaga versões delas", escreve Elias num papel. Resta saber se alguém terá a coragem de se recusar a esquecer.